A Desvalorização do Beatmaker no Brasil


A Desvalorização do Beatmaker no Cenário Nacional

Olá meus amigos, como vocês estão?

Praticamente, todo mundo sabe que a desvalorização do beatmaker é constante, seja no mercado internacional como no nosso cenário nacional, mas já parou pra saber o quanto isso afeta um beatmaker? seja na parte artística como na parte financeira (Sim, um beatmaker precisa ser pago, caso algum mc esteja lendo isso)


Decidi entrevistar 5 beatmakers, entre eles:


AmandesNoBeat, Beatmaker de Taubaté, Produz desde 2014 e tem produções para Nego Max, Djonga, Froid, Raffa Moreira, Vietnã, Menestrel, RapBox.


808Luke, Beatmaker do Rio Grande do Sul, recentemente produziu álbum "Entre o Céu e o Esgoto" do Duzz e já produziu Baco Exu do Blues, DK ADL, L7NNON, Terra Preta, entre outros.


Eddu Chaves, Beatmaker e Produtor Musical, criador do coletivo MOSA, produziu nomes como Card, Pimpo$o, Raffa Moreira, e muitos outros...


Doidão Beats, Começou a fazer beats em 2014 e hoje já produziu nomes como Lil Fire, Binho Ln, Sickk, França OG, Klyn, FBC, Kk Ousado, Vxnxms, Ronny, Marcão Baixada.


Jay-Gueto, Beatmaker, Produtor Musical & MC, fundador do selo GuetoAnonimato Records, já produziu nomes como Baltazar MC, Gho$t, Dona Maria MC, Rafuagi, Dos santos e outros...

01 - Vocês já passaram por alguma situação de desvalorização do seu trabalho? Como foi?


Doidão Beats: Já sim, dentro de casa mesmo até certo tempo viviam me dizendo que o que eu faço não é um trabalho e muitas vezes fui questionado sobre o preço dos meus beats, os mcs querem qualidade mas não querem ter q pagar um preço justo. 


AmandesNoBeat: Diversas vezes, a maioria delas no início da carreira. O caso mais típico foi o da famosa pechincha, onde alguns MCs me procuraram para saber sobre o valor do instrumental e julgaram como um valor alto, então disseram que outro beatmaker faria por valor menor. Outro caso típico foi, o Mc me procurou interessado em determinado instrumental, sabendo que eu trabalho com descontos mediante a minha tabela de vendas e quando não aceitei fazer algum acordo fora do contexto já exposto por mim, começou a chuva de xingamentos e diminuição do meu trabalho. Houve casos também que o MC pediu para reservar o beat e simplesmente não respondeu mais, não prestou nenhum tipo de esclarecimento. Eu entendo que todos temos problemas pessoais e coisas do tipo, mas isso não impede o MC de simplesmente esclarecer sobre determinado trabalho. Se não há mais interesse no instrumental, avise, melhor do que ignorar.


808Luke: Uma situação de desvalorização memorável pra mim também foi um dos meus trabalhos com mais visibilidade, o que me deixou totalmente dividido e até hoje me questione sobre a situação e até que ponto a visibilidade cobre os "custos", quando um beat meu foi parar num dos maiores canais do gênero no Brasil, mas eu nem sequer fui avisado do lançamento e, em seguida, quando pedi pra ser incluso no registro do som, fui ignorado. Até hoje ninguém respondeu minhas mensagens.


Eddu Chaves: Uma situação de desvalorização que já passei foi que quase produtor já passou de "Me da um beat seu que eu te divulgo" ou "Não ta rolando grana ainda, mas quando começar a rolar..."


Jay-Gueto: Diversas vezes, a gente não percebe o quanto ta sendo desvalorizado, pois a gente se submete à tanta coisa, que as vezes nem percebe o quanto estamos sendo desvalorizados, pois acabamos achando normal... Umas das situação mais tristes que passei, foi o MC ter usado o beat guia que enviei em mp3 pra ele escrever, na música oficial, sem nem ter pago pelo instrumental.


02 - Como a desvalorização afeta um beatmaker, na parte artística e na parte financeira?


Eddu Chaves: A desvalorização afeta em varios aspectos, como a motivação de continuar trabalhando e evoluir, na parte financeira afeta no que impede de investir mais na propria carreira


808Luke: Ambas partes são totalmente comprometidas, visto que beatmaker é uma profissão que ainda é encarada como hobby por muita gente, o que faz com que muito beatmaker não seja pago ou que tentem trocar nosso trabalho pela "divulgação" e visibilidade (o que não paga contas, mas em certos casos pode fazer sim com que surjam mais trabalhos e que estes paguem as contas, apesar de não ser o ideal).


AmandesNoBeat: Assim como toda área de produção e criação, o beatmaker precisa de estímulo para desenvolver seu projeto, sendo com a sua arte sendo ouvida ou comprada. Portanto, mediante a todos os problemas encontrados pela nossa classe o beatmaker quando se sente desvalorizado ou desmotivado, acaba deixando por exemplo, de produzir catálogos, de divulgar seu trabalho, de estudar para sua atualização no mercado o que tem ligação extremamente direta com a parte financeira, onde alguns até desistem de atuar nesse ramo.


Jay-Gueto: Acredito que afeta de um modo grotesco, pois diversas vezes o beatmaker é invisibilizado na música, isso faz com que o beatmaker não tenha a mesma atenção artisticamente falando. Que no meu ver acaba refletindo financeiramente, pois outros MC's passam a acreditar que aquele trabalho não é tão ''árduo'' se o beatmaker não tem uma visibilidade grande na mídia.


DoidãoBeats: Quase sempre quem é beatmaker no Brasil não é somente beatmaker, é uma espécie de faz tudo, a desvalorização pode acabar afetando emocionalmente causando um desgaste na parte artística, às vezes até nos limitando com pensamentos negativos, pra ser valorizado como beatmaker tem que trampar 10x mais que um mc. 


03 - Você acha que tem alguma maneira de educar os mcs e o público a valorizarem mais os beatmakers?


DoidãoBeats: Imagina só se todos beatmakers entrassem em um acordo entre nós todos e só vendêssemos beats de tal valor pra cima? Hahahaha 

Mas acho q uma forma de tá educando os mcs é tá sempre ali pegando sua parte dos royalty e vendendo as licenças por um preço justo de acordo com seu esforço, o público de uns tempos pra cá eu vejo que eles estão evoluindo os ouvidos, hoje em dia muita gente tá ouvindo música só por causa do beat, isso é demais!


AmandesNoBeat: Eu acho que uma parcela dessa ''má-educação'', desvalorização ou de mal acostumar os Mcs parte do próprio beatmaker, por exemplo, quando um MC não é conhecido nacionalmente já observei diversas situações onde o beatmaker vende seu produto por um valor irrisório, visando gerar um montante que, se ele se propusesse a estudar um pouco mais e aplicar os métodos adequados mediante sua evolução, poderia trabalhar muito menos e ganhar um montante equivalente e visando o principal de tudo que é a qualidade final. Já com Mcs renomados, eu vejo por parte de alguns beatmakers a necessidade exacerbada em trabalhar com determinado MC sob qualquer circunstância, deixando de lado o que seria seu por direito, como por exemplo, um valor X fixo pelo beat, mais porcentagens de royalties, ISRC e afins. Tudo isso no final acaba mal acostumando o MC a trabalhar se importando com valores pequenos, quantidade e não qualidade e fazendo com o que o MC não tenha interesse em trabalhar com produtores que agem profissionalmente, pois não tem a necessidade de dividir os royalties das músicas. Acho que as melhores maneiras de mudarmos esse quadro são : O beatmaker desde o primeiro momento sendo franco com o MC comprador ou com o MC que deseja fazer negócio com ele, explicando sua metodologia de trabalho, sendo maleável mas a valorizando em qualquer circunstância. Todos nós estamos abertos a negociação porém uma negociação onde só um lado ganha não é algo justo, isso que os beatmakers precisam entender sobre si próprios. Outra questão é a ênfase em se qualificar antes de querer ganhar dinheiro. Estude sempre, se atualize e cobre valores que condizem com a qualidade do seu produto. Em nenhuma empresa ou área de atuação no mundo você consegue trabalhar sem qualificação, ou até mesmo se conseguir, não durará muito tempo no mercado até perceberem que você não é apto para tal função.


808Luke: Tenho visto uma crescente na valorização do beatmakers, acho que isso tem a ver com a imposição dos mesmos diante do mercado e o protagonismo que a gente assume na música, ainda mais numa época em que o beat pode sozinho carregar o som. Outra coisa muito importante é ver que tem crescido o número de beatmakers e produtores lançando seus próprios singles e álbuns e botando os cantores como participação, isso faz com o público veja que a gente também é artista e o nosso trabalho é muito importante.

Acho que esse comportamento deve ser mantido, e a gente precisa exigir nossa parte em todo trabalho, não só a visibilidade, mesmo que não haja dinheiro prévio, temos total direito em uma porcentagem dos royalties, e esse pensamento precisa ser disseminado ao extremo, pra que quem ta chegando agora saiba o que tem direito.


EdduChaves: Uma maneira de educar o publico e os mcs, é o proprio beatmaker se valorizar, botar a cara e bater o pé, reconhecendo o proprio valor.


Jay-Gueto: Sim, dando protagonismo para o Beatmaker, como por exemplo era com o DJ no inicio da cultura, não que o beatmaker tenha que aparecer mais, mas dar visibilidade igualmente. Vejo que em outros ritmos como o funk, isso é valorizado de uma outra forma, o MC sabe que sem o produtor que na maioria das vezes é um DJ, a sua música não acontece, mesmo que os MC fiquem famosos e ganhem mais atenção, na maioria dos casos a gente sabe quem produziu aquele funk, o que é ao contrário no Rap.


04 - Se não houvesse desvalorização na nossa cena, em qual patamar os beatmakers estariam agora?


808Luke: Acho que muito mais gente ia ter recurso pra investir no próprio trabalho, o que consequentemente faz com que toda a cena evolua, tenha mais estrutura pra trabalhar e impulsione criativamente todo mundo ao redor!


Jay-Gueto: É difícil especular, pois acredito muito que junto da desvalorização, ocorre uma certa falta de profissionalização da parte dos beatmakers e MC's na questão do registro das músicas e etc. E por exemplo pra gente chegar perto de um patamar dos EUA, acho que teria que partir desse ponto de profissionalização de ambos. Mas por outro lado, com a valorização dos beatmakers, a gente estaria num patamar em que nós estivéssemos vivendo mais confortavelmente dentro do mercado, também teríamos muitos mais nomes em evidência na cena, digo numa grande quantidade comparado aos numeros de MC's, teríamos muito mais eventos dedicados só a Beatmakers, acredito que teríamos mais beatmakers como protagonistas das músicas lançadas!


AmandesNoBeat: Acredito eu que no mesmo patamar que os MCs reconhecidos nacionalmente ou quiçá, ambos estariam até mais à frente em questão financeira, pois quando se tem mais dinheiro girando no mercado, existe a maior possibilidade de investimento nas áreas. Se eu pago o que é por direito de um beatmaker ou de um videomaker ou qualquer outra área que seja, ele tem um capital de giro para que possa se equipar melhor, atualizar seus estudos, cobrir investimentos e coisas do tipo.


Eddu Chaves: O beatmaker estaria no mais alto patamar junto com os mcs, mas acredito que estamos chegando lá aos poucos, ano passado foi muito bom para os beatmakers e esse ano vai ser ainda melhor. Existem veiculos dando suporte para os produtores e existem cada vez mais, singles, eps e albuns que levam o nome dos beatmakers.


DoidãoBeats: Estaríamos no mesmo patamar que os mcs, tendo o nosso devido reconhecimento, podendo sobreviver da criatividade. 



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